SÍTIO DAS DROGAS

Porto, Dezembro, 1974. Houve quem mal tivesse pregado olho nas primeiras noites. Era uma alegria infinda dormir num apartamento amplo, ainda a cheirar a tinta, com casa de banho e tudo. O centro histórico, cheio como um ovo, carecia de valente conserto. A cidade prometia fazê-lo.


Para a segunda torre viriam outras famílias das mais insalubres “colmeias” da Ribeira-Barredo. De súbito, o rumor de que esses apartamentos, afinal, seriam entregues a famílias regressadas das ex-colónias portuguesas. Maria José e outros saíram, esbaforidos, da Ribeira-Barredo e forçaram entradas. “Não tínhamos móveis nem nada. Dormimos no chão. Fiz o meu filho mais novo no chão.”


Cinco torres de 13 andares irromperam na paisagem, já a chegar à Foz do Douro. Era como se a desafiassem.
A heroína descobriu o bairro mal entrou em Portugal. Era fácil ludibriar a polícia, faltava emprego, abundava trabalho precário e mal pago. Primeiro, circulou com discrição; depois, a deixar perceber transacções de pequenos grupos; por fim, a convocar filas pelas escadas da primeira torre acima.


Maria José prefere nem se lembrar, mas também traficou. “Com quatro filhos para cuidar e um marido toxicodependente!”


O bairro captou a atenção de quem quis perceber o habitat das drogas. Os moradores aproveitaram para expressar desgosto. Era “um mau lugar para estar”, concentrava criminosos, gente que vivia à margem, o que gerava tensão, tornava-o num “sítio a evitar”.


Morar ali não era ser “cadastrola”. Morar ali era carregar a imagem. Escapar-lhe exigia energia adicional.
Dentro e fora, crescia a descrença no destino colectivo. Pouco a pouco, as cinco torres, que a desindustrialização rodeou de espaços abandonados, foram cercadas por condomínios de luxo. E, em 2008, o senhorio, a Câmara do Porto, decretou-lhe a sentença de morte. Maria José ia deixar de ter o seu apartamento amplo, com vista de rio e de mar, óptima varanda para banhos de sol.


Porto, Dezembro, 2011. Implodiu-se a quinta torre, a última a erguer e a habitar. As outras ainda lá estão e já o tráfico procura outros territórios de pobreza e exclusão. Os moradores também estão a ser transferidos para outros bairros. Ninguém foi devolvido à cidade, apesar das obrigações do Fundo Especial de Investimento Imobiliário, criado para erradicar o Aleixo e reutilizar os seus terrenos.