SELECÇÃO DE ESPERANÇAS

À minha frente estavam três jovens mulheres arreigadas pela vontade. Escutei-as.


Ana é contida e cautelosa. Cátia é impulsiva e transparente. Filomena é portuguesíssima no sotaque e determinada na forma como se deixa escutar. Acabara de encontrar as protagonistas da minha reportagem. É essencial mostrar, a quem percorre a vida apoiada no queixume, que somos quase sempre aquilo que fazemos de nós próprios.


Ana nasceu em Setúbal e tem origens em Cabo Verde. De jeito doce e de timbre suave, revela-se a mulher que em menina tomou as rédeas da casa. Aos oito anos suportava a responsabilidade de ajudar a criar o irmão, de ter a mesa posta, a cama feita e a roupa lavada. Apoiava a mãe nos dias ausentes dominados pela destruidora obediência ao álcool. Conviveu com essa presença distante e em vez de recriminar aprendeu a entender e a perdoar. Foi uma aluna exemplar.
Cátia tem Cabo Verde no sangue, mas foi em Portugal que se encontrou. Cresceu na Zona J de Chelas. Debruçada no varandim do 7º andar do prédio onde, ainda hoje, mora, sonhava em biquinhos dos pés que um dia haveria de ajudar muitos daqueles que vira humilhados pelos mais poderosos. Sofrera com as cargas policiais sobre os vizinhos da frente, do lado e de baixo; sobre mães e filhos; sobre crianças e jovens. A inocência da idade não lhe descortinava a resposta para tal atrocidade. Queria ajudar quem a rodeava. Queria ser capaz de apagar o estigma que paralisa quem quer seguir em frente mas que se sente “preso” por que pertence a uma zona que muitos interditaram à honestidade. A Zona J de Chelas sofre com a cicatriz da criminalidade, do tráfico de droga, da delinquência e carimba, sem dó nem piedade, os alheios ao mundo marginal ou quem anseia refazer a vida. Cátia estuda e trabalha.


Filomena tem na pele um pedaço da Guiné-Bissau, mas todo o jeito está moldado a Portugal. Recebeu-nos no seu refúgio. Já tem uma casa. Nunca antes se recostara num sofá apenas seu; dormira numa cama à sua medida; desfrutara da sua cozinha; olhara o tecto, as paredes e o chão, como pertences. Vivera a vida em instituições. Fora entregue pelos pais à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Aprendeu com o melhor e com o pior. Não se reduziu à insignificância que alguns queriam. Não cruzou os braços. Hoje vive em função dos outros. É assistente social. Perdoou a decisão dos pais. É feliz.


Ana, Cátia e Filomena são exemplos de quem dá sem esperar em troca. Foram convidadas a integrar uma escola de valores, a Academia Ubuntu – projecto dinamizado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Aprenderam a aprofundar sentimentos e acções que têm sempre em vista o outro. Estão a desenvolver projectos ambiciosos de empreendedorismo social.


Saber servir também se aprende.