NOTAS DE UM 25 DE ABRIL COM CHUVA

Li no Express (um portal belga de negócios) uma ideia perturbadora colhida de um jornal de Frankfurt por Mylène Vandecasteele. Para lá da crise económica e dos perigos que cercam o euro, "a Europa começa a enfrentar uma outra ameaça, ainda discreta: o fim da democracia".


Tinha acabado de escutar, da boca do presidente, a longa lista de sucessos portugueses de uma década (que não o impediu de um diagnóstico cáustico, há um ano). Cavaco enalteceu, desta vez, o cartão pré-pago e a via verde do orgulho nacional mas não retomou a reflexão quanto aos limites para o sacrifício. Mais razoável se afigura que o lider da bancada maior da oposição tenha referido os limites do consenso. Não vale tudo, não pode valer tudo.


Um deputado da maioria exibiu, entretanto, o "certificado" que o povo lhe dera para estar ali e, do mesmo passo, sustentou que "o 25 de Abril tem autores mas não tem donos". Um dos "autores" respondeu-lhe que o povo não passou certificado para a "entrega de soberania". O "autor" recusou a pretensão de ser dono daquilo que, desde o próprio dia inaugural, "pertence ao povo".


E uma mulher antiga disse, na Avenida: "aquilo por que lutámos não existe agora". Afinal, talvez o deputado da maioria devesse ter referido, em vez de certificado, senhas de racionamento. E não penso em pão para a fome do estômago, o pão que começa a faltar nos bancos alimentares.


Outras notas alinhadas por Mylène Vandecasteele, num 25 de Abril à chuva: As regras da democracia supõem que os cidadãos possam dar com frequência uma palavra sobre a política, também sobre a política económica e sobre as medidas que estão a ser tomadas. Mas, cada vez mais, essa liberdade de expressão "é vista como um factor de instabilidade pelos mercados financeiros". Mylène lembra o facto de, em França, os mercados terem já começado a sancionar a popularidade de Hollande. Por isso ela escreve, em título: "Democracia na UE: o povo é um elemento perturbador". Entretanto cita Joseph Vogel, um professor de literatura, que a propósito das decisões tomadas quase exclusivamente em resultado da negociação entre governos, banqueiros e banca central, fala em "sovietes da finança".
Ontem não vimos, ainda não vimos, banqueiros de cravo na lapela. Mas foi estranho vermos cravos na lapela de alguns que Joseph Vogel talvez incluisse num qualquer "soviete das finanças".



Crónica no “Sinais” da TSF, a 26 de Abril de 2012