SERGIY E TAMARA SÃO, EM PORTUGAL, UMA NÓDOA BRANCA

Sergiy Plugatar tem olhos muito azuis sob sobrancelhas bem definidas. Tem a pele dourada do sol, mas não chega para disfarçar, fingir que é moreno. Tamara Pryanyk, a sua namorada, é alta e tem uns olhos verdes que com a maquilhagem parecem ainda mais olhos de gata. Quando vão a qualquer lado, Sergiy e Tamara distinguem-se imediatamente.


Os portugueses costumam falar dos seus emigrantes que estão fora mas dentro do país, diz Sergiy, “mantêm uma ideia de nacionalismo”. E dentro dessa ideia, Sergiy e Tamara não têm lugar. A Tamara, que veio da Ucrânia aos 11 anos, já lhe disseram várias vezes assim “de caras”: “Vai embora para a tua terra!”.


Durante o longo fim de tarde de Primavera, quente como no Verão, nos momentos em que não tem clientes na gelataria Ice-it, no Freeport, em Alcochete, onde trabalha em part-time, Sergiy vem à esplanada, traz crepes para Tamara e conversa com os jovens ucranianos e russos que vão aparecendo. Em meia dúzia de mesas se faz uma Rússia, uma Ucrânia. Onde o sol brilha quase todo o ano.


Sergiy diz que sempre vai “ter uma mentalidade russa, ucraniana”. É essa mentalidade que faz com que tenha mais amigos russos do que portugueses e se sinta melhor com Tamara do que com uma namorada portuguesa. Talvez seja também o facto de partilharem o mesmo percurso, de viverem num país que já não lhes é estranho mas ainda não lhes é inteiramente familiar.


Aos 21 anos, Sergiy já trabalhou nas obras, nas vindimas, nas discotecas. Agora está a fazer um estágio numa empresa de instalação e manutenção de painéis solares, parte de um curso profissional. Talvez as energias renováveis sejam o nosso futuro, mas no futuro mais próximo Sergiy duvida se terá emprego.


Portugal está difícil para todos. Está mais difícil para ele e para Tamara. “Os portugueses põe-nos à parte”, diz Sergiy. O racismo, percebeu logo aos 13 anos quando chegou a Portugal e todos os dias andava em lutas na escola, não tem uma única cor. “Nós somos uma nódoa branca.”


Quando Sergiy diz que “a comida portuguesa é boa” e que Portugal “tem terras bonitas”, di-lo como se já tivesse partido e voltasse de visita. Ele tem um sonho com 16 mil quilómetros. Na Austrália, Sergiy poderia fazer surf e kite-surf como faz aqui nas praias da margem sul do Tejo. A Austrália, diz, tem o que Portugal tem: sol e mar. E terá o que Portugal não tem: um futuro para ele e Tamara?



a partir de reportagem publicada no Público a 21 de Maio de 2011