A VOZ QUE ENFRENTA A CÓLERA

Uso a voz como uma arma. Uma arma apontada à violência, à ignorância, ao preconceito. Sou uma entre centenas de guineenses que tornam, todos os dias, o sonho real: o sonho de rádios na comunidade, feitas e geridas pela comunidade e colocadas ao seu serviço. Na minha Guiné-Bissau, que é muito mais do que conflitos, homens de camuflado e olhar perdido, há mais de vinte destas estações que não procuram lucro, mas antes criar opinião pública e ajudar a construir a democracia.


A telefonia sempre fez parte da minha vida. Trouxe-me, desde cedo, notícias de Portugal, de Londres, de França, de Bissau mas, no início de 94, ficou ainda mais próxima quando nasceu no Quelelé a primeira rádio comunitária. Eram tempos difíceis na política e o poder rapidamente a calou até que no fim desse ano, lembro-me bem, a cólera veio sem tréguas.


A Rádio reabriu, alheia às proibições e à pressão. Os moradores participavam nos programas, levantavam, em directo, as dúvidas aos médicos que estavam no pequeno estúdio. Pelas ruas circulavam equipas de residentes em campanhas de sensibilização sobre higiene individual e colectiva, desinfecção dos poços de água, limpeza de lixo, controlo do estado de saúde e evacuação dos doentes sintomáticos para o hospital central. No bairro do Quelelé, a cólera fez um morto; em Bissau matou centenas. Era o princípio de um caminho.


Por todo o país, estas rádios são hoje espaços de partilha, cidadania e reflexão. A minha voz, as nossas vozes, entram nas casas das cidades mas também nos táxis, nas pirogas, nas tabancas onde, tantas vezes, há um transístor no terreiro onde a comunidade se reúne para escutar. Quando levantamos a via e as nossas mensagens se elevam sobre a terra vermelha, damos notícias, resgatamos tradições, combatemos tabus, promovemos a mudança. É lenta mas está a acontecer!


Sou mulher. Sou mulher da rádio e sinto como este trabalho dá força às mães e filhas do meu país. Falo-lhes dos meninos que pedem esmola nas ruas de Dacar em vez de, como os pais pensavam, estarem a estudar o Alcorão, revelo-lhes os perigos do fanado, do parto na mata. Levo também informação sobre sementes, sobre as formas de melhor cultivar e de proteger a natureza desta Guiné que espera, ainda, a sua oportunidade para se concretizar como Estado de Direito e de direitos. Sabemos que ela espreita. A nossa missão é preparar esse dia!



A partir de testemunhos de radialistas comunitários da Guiné-Bissau