LER NA ERA DAS DISTRACÇÕES

Há razões para crer que textos longos não fazem sentido na Internet, onde as distracções são constantes. O autor americano Nicolas Carr, que escreveu um best-seller sobre o assunto, argumenta que este fenómeno de atenção saltitante de quem está em frente a um ecrã está a alterar o nosso cérebro e a retirar-nos a capacidade de pensar em profundidade – o tipo de pensamento que se consegue ao mergulhar num longo texto.



Carr diz haver uma tendência para o encurtamento da informação e entretenimento. No seu blogue, Rough Type, escreveu: “Se olharmos para as estatísticas de consumo de informação, vemos indícios consideráveis desta tendência de décadas (...). A duração média de basicamente qualquer produto cultural – revistas, artigos de jornal, segmentos televisivos, soundbites, livros, correspondência pessoal, anúncios, filmes – revela uma compressão de tamanho constante (...). Estudos sobre leitura e investigação comportamental também sugerem que estamos a gastar cada vez menos tempo com cada objecto que passa pela nossa atenção.”



Entre a parafernália de solicitações do mundo digital, diz a teoria, não há lugar para leituras aprofundadas. A prática, porém, parece contrariar a teoria. Pelo menos desde que sugiram os smartphones, o iPad e o Kindle. Para além destes aparelhos (e por causa deles) há sites como o Longreads, o Lonfgorm e o Instapaper, que se dedicam a seleccionar trabalhos jornalísticos para quem gosta de ler em profundidade.



Ken Doctor, um ex-jornalista americano que é hoje analista de media e autor do livro Newsonomics: Twelve New Trends that Will Shape the News You Get argumenta que o Google foi um dos culpados: “Do sucesso do Google, concluímos que as pessoas só queriam ler excertos, histórias curtas ou resumos. Muitas vezes usamos o Google dessa forma, apenas para encontrar uma explicação rápida.”

Agora, observa o especialista, a tecnologia finalmente tornou-se apropriada a um tipo de leitura que nunca se perdeu. “Ler histórias longas nunca desapareceu, especialmente para os que gostam de entender as notícias, como os leitores tradicionais de jornais. O surgimento dos tablets veio prová-lo. Há sessões de leitura em papel em paralelo com a leitura digital. Gasta-se mais tempo a ler notícias e a ler histórias mais longas.”