O termo cooperação remete-nos para a ideia de colaboração entre indivíduos ou grupos no sentido de se alcançarem resultados mutuamente acordados. Trata-se de uma equação que inclui uma dimensão de sonho, enquanto um futuro desejado, de confiança, enquanto crença no outro e de poder, ainda que por vezes desigual, para intervir nas circunstâncias desafiadoras do presente e do futuro.


Cooperação e competição podem ser entendidas como os dois tipos de relação-motor da transformação da Humanidade. Mas, a discussão de ambos, remete-nos para visões do Homem, da natureza e das sociedades que oscilam entre a preponderância do egoísmo ou do altruísmo enquanto valores primordiais da conduta dos indivíduos bem como dos modos de organização e funcionamento dos grupos. Cooperação e competição, quase como duas faces de uma moeda, estabelecem entre si relações complexas em que uma pode ser promotora ou constrangedora da outra.


Na reflexão académica, algumas teorias enfatizam preponderância do egoísmo. São exemplos importantes a abordagem conhecida como o Dilema do prisioneiro, proveniente da Teoria dos Jogos (Flood e Dresher, 1950), a abordagem de Olson sobre acção colectiva (1965) e a Tragédia dos Comuns, proposta por Hardin (1968). Todas têm em comum a ideia de que a busca pelo interesse individual prevalece, mesmo que os seus impactos, nomeadamente de longo prazo, sejam prejudiciais para todos. Ou seja, a cooperação entre enfrenta como limitação fundamental, o egoísmo como elemento chave nas decisões humanas.


Contudo, outras abordagens, nomeadamente da Antropologia e da História, desenvolvidas a partir de estudos de comunidades e de movimentos sociais, têm evidenciado a importância da capacidade de cooperação e os comportamentos de altruísmo, na manutenção da sobrevivência dos grupos Ostrom (1990).
Outros autores (Bowles and Gistis, 2011) procuram perceber os factores subjacentes à cooperação enquanto estratégia central para o funcionamento das sociedades. Desta reflexão apontam-se como respostas, a capacidade dos grupos humanos encontrarem formas de recompensar comportamentos altruístas, que reconhecem como fundamentais à sobrevivência – e de punir comportamentos contrários – através da partilha de recursos e da limitação das hierarquias e das desigualdades. Pelo processo de socialização é garantida a aquisição dos valores e normas fundamentais à colaboração e ao alinhamento com os objectivos colectivos. Finalmente, a inter-relação competição e cooperação revela-se importante no fortalecimento de formas de colaboração intra-grupo em resposta a desafios ou ameaças exteriores.


Em suma, os grupos cooperam porque a cooperação se mostrou benéfica para os seus membros. Ela é também resultado da capacidade humana de estabelecer instituições, definir normas de conduta, comunicar, e punir comportamentos bem como, de experienciar emoções sociais como a empatia, a vergonha, a revolta, e de criação de laços afectivos, para além dos laços familiares, com base numa identidade comum, que se reflecte na partilha de códigos de comportamento, comunicação, valores e visões do mundo.


Assim, a partir do debate das relações complexas entre competição e cooperação e das noções de nós e do Outro, como posicionar a cooperação enquanto modo de relação entre povos ou Estados, no contexto internacional? As explicações teóricas para esta questão podem ser posicionadas num continuum entre a ideia de que a cooperação corresponde fundamentalmente, a uma estratégia de defesa dos interesses individuais dos Estados, que procuram posições mais favoráveis num quadro de competição global, e a ideia de que problemas mundiais exigem o estabelecimento de formas de relacionamento, fundadas em valores comuns que permitam buscar soluções.


Poderemos então afirmar que as relações internacionais de cooperação são, numa perspectiva ampla, formas de comunicação entre povos que, pela constatação de desafios ou sonhos comuns permitem relações de confiança e o estabelecimento de instituições e normas internacionais, apesar das diferenças de poder, de riqueza, de valores, de culturas e de interesses?


As abordagens realistas das Relações Internacionais afirmam que não. Consideram que os objectivos, princípios e valores considerados como universais pela comunidade internacional são fundamentados e vão de encontro aos interesses dos Estados que detêm mais poder e são assim sempre parciais apresentando-se, mesmo que inconscientemente, como reflexos das suas políticas e discussões internas.


Mas esta resposta tem sido criticada a partir da experiência de desenvolvimento das instituições e do Direito Internacional bem como do que Bull se refere como “moralidade da sociedade internacional” ou seja, formas  de resposta, protesto e mobilização contra situações percepcionadas como injustas ou contrárias a princípios que considera serem comummente aceites como os Direitos Humanos (Bull cit in Wheeler e Dunne, 2002). O argumento é assim o de que os Estados reconhecem a necessidade de respeitar interesses e valores e de garantir o seu cumprimento, através de um conjunto de regras e de instituições nas quais estão integrados e que reflectem uma ética global.


Mas, para além dos Direitos Humanos como princípios base - apesar da discussão inerente aos mesmos - os interesses e valores chave no contexto internacional incluem a manutenção da Paz e a procura do Desenvolvimento.


Retomando a complexidade da relação competição e cooperação, experiências devastadoras de conflito à escala global, nomeadamente a II Guerra Mundial, evidenciaram a importância da colaboração. A paz surge como motivação para a criação de instituições internacionais que procuram mitigar os efeitos perversos da competição. No mesmo contexto histórico emerge a ideia de que a reconstrução e o desenvolvimento são valores e tarefas comuns. Em 1945, a Ajuda ao Desenvolvimento tornou-se um compromisso dos vencedores construindo-se, a partir daí, um discurso, práticas e instituições com essa finalidade, com o objectivo de reconstruir a Europa e posteriormente, elevar os padrões de vida dos chamados Países em Desenvolvimento. Aqui também, a ONU, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional desempenham um papel chave, a par dos Estados, nas relações bilaterais.


Mas importa referir igualmente, que a par da construção das instituições internacionais e da cooperação entre Estados, se construiu um espaço para a chamada cooperação descentralizada que se fundamenta na colaboração entre organizações não-governamentais, movimentos sociais, grupos de vários tipos, orgãos descentralizados do Estado. O argumento fundamental para este tipo de cooperação é o da construção da proximidades entre indivíduos como factor crucial na construção da chamada sociedade internacional, fundamentada nas relações, valores, práticas e emoções humanas, que permita a partir daí a construção de instituições efectivamente comuns e da tal comunidade humana imaginada.


Mas, as criticas às abordagens internacionais de cooperação - para a Paz e Desenvolvimento - têm sido muitas. A cooperação é considerada como espaço de construção de dependências, de manutenção das posições favoráveis pelos países mais ricos, de imposição cultural e ideológica. Efectivamente, as relações sociais, incluindo as de cooperação, não são espaços de neutralidade (Lima, 2005). Incluem relações de poder - confronto e alinhamento em torno de orientações e construção de consensos para o que se pretende alcançar - que se expressam em práticas concretas ou seja, formas de competir ou colaborar, de construir ou destruir sonhos de futuro, de criar lugares de confiança e desconfiança.


De todos estes modos de relação surgem culturas específicas como forma de encontro entre os povos permanecendo a relação cooperação-competição, nós – outro, espaços de reconfiguração permanente. Atentando nesta complexidade e na sua persistência enquanto aspecto central da condição humana, a cooperação mantém-se pergunta para reflexão científica mas também filosófica, artística, política, religiosa. A revista Science coloca-a entre as 25 perguntas mais relevantes para os cientistas – das ciências naturais e sociais – para os tempos que se avizinham.