CÉSAR SCHOFIELD CARDOSO: "SOMOS UNS E OUTROS, UMA COISA NOVA"

"Tenho a sensação que, uma vez conquistada a independência, ficamos órfãos de causas, como se não houvesse mais batalhas a travar. A primeira libertação é, paradoxalmente, desses conceitos confusos como a crioulidade, que nos obriga a inventariar, catalogar, classificar, definir quem é e quem não é. É a libertação da história violenta, traumática, errónea e rancorosa, para assumirmos tudo o que somos na actualidade.


O mundo todo se tornou crioulo ou vai tornar-se muito rapidamente ou se ainda não se tornou é porque subsistem bolsas de resistência anacrónicas.


A utopia é contagiante. Quando competentemente utópica, muda realmente as coisas, carrega pessoas com ela. Do ponto de vista social e cultural, a utopia é um verdadeira resistência ao pensamento que nos diz que as coisas são como são (más), devem ser assim e vão continuar a ser assim. É preciso negar a fatalidade da desgraça humana e afirmar com muita força que existem soluções mais equilibradas e até mais inteligentes.


A utopia da liberdade, para mim, é exigir mais educação e mais cultura, mais partilha e mais tranquilidade de espírito para resolver as dificuldades, mais criatividade e mais inteligência. Liberdade não é o contrário de estar preso; é a capacidade de se realizar totalmente nas capacidades da pessoa.


Acho sempre interessante a afirmação da crioulidade que diz “nem uns, nem outros, somente crioulos” porque entra em completa contradição com o próprio conceito de crioulidade, que é inclusiva e devia ser formulado assim: “somos uns e outros, uma coisa nova”.


Crioulidade é formar culturas novas. Sim, utopia! Há caus
as a criar: umas parecerão utópicas, pela sua aparente inalcançabilidade, mas há outras que são mais concretas: cultura e desenvolvimento são sinónimos. Não existe nenhuma sociedade até hoje que se tenha desenvolvido sem o desenvolvimento da Cultura. E quando dizemos Cultura, temos de falar do básico, Educação. Parece infantilmente óbvio. Estou completamente convencido de que a Arte é a catarse de que precisamos"