NOS BALCÃS, UM GENERAL SEM MEDO

A desigualdade social não pode ser combatida quando olhamos o outro de forma... desigual; quando o nosso olhar estereotipa o Outro como inferior, menos capaz, menos bonito, menos inteligente. Em situações-limite, nas guerras, o Outro, o inferior, passa a ter menos direito à vida. Antes e depois, que os conflitos entre povos, etnias ou religiões duram para lá do fim das guerras. E assim se perpetua a desigualdade.


Há 20 anos, quando os sérvios bósnios iniciaram o cerco a Sarajevo, um general sérvio podia ter feito o mais fácil: estar do lado dos mais fortes e que, por religião e consanguinidade, eram os seus.


Jovan Divjak não pensou assim. Decidiu ficar com os cidadãos de Sarajevo. “Nasci no Hospital de Belgrado, mas isso não faz de mim um cidadão de Belgrado. Poderia ter nascido em Lisboa e seria na mesma cidadão de Sarajevo. Vivo aqui há 40 anos, os meus filhos são de cá, fiz aqui toda a minha carreira no exército. Para muitos, foi estranho, alguém nascido na Sérvia e criado na Voivodina, ter decidido ficar em Sarajevo com os muçulmanos. Insisto neste ponto: sou bósnio, cidadão de Sarajevo, e do mundo, independentemente de ter nascido sérvio, croata ou muçulmano”. E não mudou de campo ao assumir as funções de comandante adjunto da Defesa Territorial da Bósnia Herzegovina: “os outros que atiraram sobre mim é que mudaram”.


Após a guerra, a ala dura do partido do poder em Sarajevo, o SDA, conseguiu a ordem de reforma do general Divjak. O exército nacional bósnio passou a ter, em exclusivo, generais muçulmanos. Divjak tinha-se tornado incómodo para o novo poder. Passava a vida a salvar vidas de civis sérvios de Sarajevo, nomeadamente às mãos de um músico bósnio que se transformou em senhor da guerra, Caco, autor de vários massacres contra civis não muçulmanos.


Na sede da sua Education Builds Bosnia Herzegovina, que já atribuiu mais de 20 mil bolsas de estudo e promove a igualdade social no país, Divjak explica-me: "A educação é a base para o desenvolvimento. Na Bósnia há 35 mil crianças sem pais". Na guerra foram mortas 20 mil crianças. Números dramáticos num país onde 40% da população está desempregada e 60% vive no limiar da pobreza. "Todas as crianças da região, aqui, na Croácia ou na Sérvia, sofreram com a guerra, os traumas estão por todo o lado…  muitas sofreram danos psicológicos irreparáveis e vão necessitar de acompanhamento para sempre".