Nasci em Cabo Verde, o crioulo é minha língua materna e o português, minha língua segunda. Aprecio a cachupa, tomo um grogue de cana para secar o calor ou combater o frio, assisto ao Kriol Jazz, na Praia, ao teatro no Mindelo e kolá San Jon em Santo Antão. Gosto de ler e dizer o que penso e, acima das linhas da pobreza onde vivo, sinto que acrescentar isto ou aquilo à lista dos meus pertences só interessa se faz falta, porque não desejo ser reconhecido pelo que tenho, mas pelo que sou.


Entro no projecto pela janela do k perguntando se existe alguma relação entre o que digo, o kriol e a kultura? Sim, em defesa do significado das palavras como valor, porque diz Rob Rieman, o que não está na aparência, permanece no fundo. O que conta não é aquilo que visualmente separa o c do k, porque kriol e crioulo, kultura e cultura, dizem as mesmas coisas em línguas diferentes. E se cada comunidade opta por esta ou aquela grafia por força do seu destino, aqui, a escrita de crioulo e cultura com c fica justificada com o argumento de que o abecedário se escreve em português. Aliás, a letra k existe no alfabeto português para inscrever palavras de origem estrangeira, podendo ler-se como proposta de abertura ao outro e à crioulidade enquanto cultura cosmopolita de novas opções.



Cultura e identidade
Na perspectiva do Iluminismo europeu, esse movimento que no século XVIII confiou totalmente na razão, na liberdade do pensamento e na cidadania, cultura opõe-se à barbárie e é culta a pessoa que adquire invulgares conhecimentos da literatura, das artes e das ciências. Já no seu famoso Leviathan, escrito no século XVII, Thomas Hobbes definia cultura como educação e refinamento do espírito.


A Antropologia, ciência com vocação para estudar o ser humano como um todo, dá uma definição geral de cultura como o conjunto de costumes, valores e ideologias de uma sociedade identificada no cruzamento do espaço com o tempo. No sentido mais aberto, cultura e identidade incluem os conhecimentos, as crenças, as artes, a moral, as leis, os costumes, os comportamentos e os hábitos adquiridos pelo indivíduo enquanto membro de uma comunidade, circunstância que confere à alteridade o estatuto de definidor.


Todavia, o consenso sobre os significados da polissémica palavra não basta para evitar a controvérsia sobre a natureza e a função da cultura. Edward B. Tylor (1832-1917), por exemplo, considerou que cultura evolui das sociedades selvagens para o mundo civilizado. Um pouco mais tarde, Franz Boas (1858-1942) defendeu o paralelismo das zonas culturais em que o mundo se divide, exprimindo a sua originalidade através de estilos particulares. Esta diversidade de manifestações ou estilos seria um factor de enriquecimento.


Os discípulos de Boas acrescentaram à teoria do paralelismo e da unidade o princípio da integração na sociedade através da aprendizagem de modelos que variam entre comunidades e gerações. Hoje, a declaração de uma cultura como património da Humanidade expressa o reconhecimento do valor de um universo de símbolos que antecede e transcende cada um de nós.


Os americanos, os cabo-verdianos, os chineses, os franceses, os japoneses, os tuaregues do Mali, os polacos e os sírios têm línguas, hábitos, crenças, leis e condutas diversas num dado momento e ao longo do tempo. Dirão alguns que é a identidade de cada povo, uma qualidade do que permanece igual a si próprio, mas ao fazê-lo trazem para a discussão um termo armadilhado, que pressupõe o fechamento em épocas e fronteiras no interior das quais uma pessoa ou um grupo afirmam as suas marcas de pertença exclusiva a uma classe, raça, sexo ou religião, sem ter em conta o outro nem as transformações históricas e as consequências da interacção social e cultural.


Bronislaw Malinowski deu um novo impulso à Antropologia, enfatizando o trabalho de campo e a teoria científica, nos termos da qual a organização é um imperativo da vida em sociedade e tem a função de satisfazer necessidades biológicas, psicológicas e sociais. A análise funcionalista da experiência de terreno permitiu a Amílcar Cabral elaborar a teoria da libertação como acto de cultura, uma defesa argumentada da relação necessária entre cultura, liberdade e desenvolvimento.



Identidade e Crioulidade
A reflexão sobre as transformações e as consequências da interacção social nas culturas sublinha a lógica das múltiplas pertenças. Neste sentido, a ambivalência, o hibridismo e a mestiçagem inscrevem-se nas dinâmicas de integração e tendem a ultrapassar, pela conversação, a simples coexistência hostil e o essencialismo promotor de conflitos. Patrick Chamoiseau e os seus companheiros das Antilhas, do Brasil e da Martinica apresentam a crioulidade como um agregado de elementos culturais que a História reúne no mesmo espaço para reinventar a vida. Para o historiador angolano Marcelo Bittencourt o crioulo tanto pode ser um indivíduo negro, como branco ou mulato. É a presença de cultura africana ou europeia lado a lado no seu comportamento que o irá caracterizar como tal. E o escritor José Eduardo Agualusa, o mais conhecido revelador do fenómeno angolano, esclarece que culturas crioulas são mestiças e estas são centenárias.


Na verdade, crioulos já não são os indivíduos, os animais e as plantas trazidas pelos europeus do século XV às várias partes do mundo, nem os filhos deles aí nascidos, nem sequer os sistemas linguísticos resultantes do contacto das suas línguas com as línguas das populações de outras paragens. “Tendo em conta a permanente reciclagem de si mesma que é a vida de qualquer povo” como sugere Eduardo Lourenço, duas asserções parecem lícitas: a identidade é dinâmica e a cultura é constitutiva da vida em sociedade. Crioulidade, por sua vez, deixou de ser um fenómeno circunscrito a determinadas ilhas e áreas continentais para ser uma tendência universal e uma nova utopia, que Lewis Mumford situa entre a loucura e a esperança na Terra do Nunca.



Cultura e desenvolvimento

O descontrolo a que o mundo chegou acrescenta à discussão sobre as diferenças entre o crescimento e o desenvolvimento a dimensão cultural, que assume crescente destaque nas agendas. A ideia é de que os dois termos não se confundem nem se excluem. Em teoria, desenvolvimento é cada vez mais encarado como um processo complexo de mudanças e transformações de ordem económica, política e, principalmente, humana e social, pressupondo o aumento da riqueza através do crescimento económico.


Na perspectiva de desenvolvimento como expansão da liberdade, Amartya Sen actualiza as quatro liberdades e ameaças de Franklin Roosevelt (liberdade de expressão e de religião contra a penúria e o medo) e convoca a cultura como dimensão simbólica da existência social de cada povo, argamassa indispensável a qualquer projecto de nação e facto gerador de riqueza, na expressão de Gilberto Gil.


O desenvolvimento não é inerente à vida em sociedade. Em função do poder político, pode acontecer ou não, cabendo aos segmentos organizados da sociedade promover a cultura das comunidades e a pedagogia da participação. E a acção colectiva é a forma de participação local e nacional que mais se tem afirmado à escala mundial como complemento e contrapeso dos partidos políticos e dos Estados na procura de mais liberdade e democracia.