COMBATER O ÓDIO, NÃO O INIMIGO

O palestiniano Aziz Abu Sarah tinha 10 anos quando o irmão mais velho morreu depois de torturado numa prisão israelita. O judeu Kobi Skolnick foi, assim se definiu, “um colono ultra-ortodoxo, radical e extremista”, a quem os árabes mataram 16 companheiros no Exército. Ambos estavam obcecados com a vingança. Hoje, são guias turísticos numa agência em que cada um descreve uma narrativa pessoal e histórica do conflito.


Aziz, 35 anos, galardoado em 2011 pela National Geographic como Emerging Explorer, é co-fundador da MEJDI (Middle East Justice and Development Initiative), projecto para promover a paz na região através de um “turismo sustentável de apoio às populações locais”. O momento em que decidiu que o seu combate seria contra “o ódio, o medo e a ignorância” surgiu nas aulas de hebraico na universidade. “Só conhecia soldados e colonos. Pela primeira vez, não me trataram como ameaça, e quis conhecer o inimigo.” Juntou-se a uma associação de israelitas e palestinianos com familiares mortos em atentados e operações militares. Visitou o Museu do Holocausto Yad Vashem. Alugou a Lista de Schindler...“Reconhecer o sofrimento do outro não me obriga a abdicar dos meus direitos. A dor não se esquece, mas temos de aprender a canalizar a raiva. É como a energia nuclear: podemos usá-la para destruir o mundo ou para gerar electricidade.”


Em 2011, um grupo de judeus norte-americanos pediu à MEJDI alojamento num campo de refugiados, em Belém, pagando o preço de um hotel. “Após dois dias e duas noites, “que incluíram fumar narguilé a olhar as estrelas, foi comovente a despedida”, contou Aziz. “Nunca tinha visto palestinianos abraçados a judeus e a chorarem por estes deixarem as suas casas." Kobi, 31 anos, que pertenceu ao ilegalizado movimento terrorista Kach, mudou de rumo quando era militar paramédico. “Não consegui salvar três crianças feridas por um atirador e, revoltado, acelerei o carro para atropelar palestinianos desarmados”, revelou. “Um amigo gritou-me: ‘O que estás a fazer?’ Fui, então, em busca de respostas.”

 

Aziz e Kobi não querem que os turistas tenham de escolher “quem deve matar quem”, mas sim que ajudem “a encontrar uma solução de justiça e reconciliação para o problema”. Um dia, num passeio por Hebron, na Cisjordânia ocupada, Kobi disse: “Alvejei esta casa quando estava na tropa.” Aziz informou-o: “Aqui vive o meu primo.” Kobi sentiu que tinha de pedir desculpa. No final, sentaram-se os três, “a tentar perceber a mente de um fanático”.